sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

'Trouxeram a cabeça do meu irmão em cima de uma bandeja': o drama das famílias das vítimas do massacre de Manaus

J. nasceu em um bairro pobre de Manaus (AM). Tinha mais de 20 irmãos. Quando criança, roubava comida para os mais novos num mercado. Adulto, foi para a prisão. "Depois foi preso e solto várias vezes", conta a família. "Era meio violento."


Em 1º de janeiro, J. foi decapitado e teve as vísceras arrancadas por presos da facção FDN (Família do Norte), que controla o tráfico de drogas na região.

Outros 55 presos do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) tiveram o mesmo fim. Mais nove morreram em presídios vizinhos.

Parentes de J.


Exatamente um mês depois da maior matança registrada em um presídio brasileiro desde o massacre do Carandiru, em 1992, a família de J. recebeu a BBC Brasil em casa. O encontro revela o desamparo dos parentes em luto e uma sensação coletiva de impotência - tanto sobre violência dos presos, quanto a falência do Estado em conter rebeliões.

Todos os parentes temem represálias e pediram anonimato durante as entrevistas.
Bandeja

Um mês depois da tragédia há corpos ainda não reconhecidos no Instituto Médico Legal de Manaus.

A uma das irmãs de J. coube a difícil tarefa de reconhecer o corpo do parente, liberado dois dias depois do massacre. "Trouxeram a cabeça do meu irmão em cima de uma bandeja, com um tiro." Outras partes do cadáver foram encontradas dias depois. "Todo furado. A cabeça do lado do ombro. Todo roxo. Como se tivessem batido de pau, ferro. Muito feio."

"Vi numa reportagem uma autoridade dizer que lá (no presídio) não tinha nenhum santo", lembra o avô, com os olhos úmidos de tristeza e opacos pela catarata em estágio avançado.

Presos em Manaus

"Ah... se tivesse no mundo um único santo. E se todos nós fôssemos iguais."

O idoso de 90 anos, delegado aposentado, fazia referência a uma frase dita pelo governador do Amazonas, José Melo (Pros), no dia seguinte à tragédia - e horas antes da neta encarar o rosto dilacerado na bandeja.

Ele repete a frase do político quatro vezes, num ciclo que parece não ter fim, durante a conversa que durou pouco mais de uma hora, enquanto escuta a garoa fina do início da noite de uma terça-feira abafada.

"Olha, sou linha dura. Sou do tempo da ditadura. Acho que quem deve tem que pagar, tem que ser preso e viver como preso", diz o senhor, com voz firme.

"Mas não como um porco", faz questão de completar.
Pão

Na pequena sala colorida, cercada de fotos antigas de família, a reportagem pergunta o que teria levado J. ao crime.

"Eu era novinha, éramos muitos irmãos e passávamos muita necessidade. Talvez tenha sido isso que o motivou a fazer o que fazia...", diz a jovem ao lado do avô.

"Roubava comida", ela lembra. "Pão."

J. estava preso no Compaj acusado de agressão como reincidente. Nunca completou o ensino fundamental, nem tinha ligação, segundo a família, com facções criminosas. Dentro do presídio, entretanto, a aproximação foi inevitável.

"Há uns seis meses, ele denunciou que um motim iria acontecer para os policiais", conta a irmã. "Sabia que ia morrer e denunciou. Foi considerado 'cagüeta'. O motim acabou não acontecendo e os agentes mandaram ele para o 'seguro'."

Nenhum comentário:

Postar um comentário