quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Com fé e oferendas, devotos lotam Rio Vermelho e reverenciam Iemanjá

Festa foi aberta com alvorada antes do amanhecer em Salvador. Flores, perfumes, espelhos, colares e pentes são principais presentes.


A longa fila que se formou desde a madrugada desta quinta-feira (2), na Rua da Paciência, bairro do Rio Vermelho, em Salvador, é uma das principais demonstrações de devoção à Iemanjá. Mas a simbologia da reverência do povo baiano, e também de turistas, à "Rainha do Mar" pode ser vista em qualquer ponto da praia do bairro considerado berço das homenagens.

Devota de Iemanjá foi até as pedras do Rio Vermelho para reverenciar a Rainha do Mar em Salvador (Foto: Sérgio Pedreira/Ag Haack)


E foi lá no Rio Vermelho que a festa foi aberta com uma alvorada antes das 5h, quando ainda era a lua que iluminava a orla. Na fila, centenas de fiéis aguardavam o grande momento de entregar as oferendas na Colônia de Pescadores, onde são guardados os balaios com presentes que vão para o alto-mar em dezenas de embarcações durante a tarde. Flores, perfumes, espelhos, colares, pentes. Segundo a crença do candomblé, Iemanjá é conhecida pela vaidade.

As flores são maioria, pois as pessoas se dizem mais preocupadas com o cuidado em não poluir o mar. É o caso da dançarina Margareth Alves que disse já ter jogado perfume na água sem o frasco, mas que hoje prefere oferecer as flores como oferendas.

Fiéis formam fila gigante para deixar presentes na Colônia de Pescadores do bairro do Rio Vermelho (Foto: Maiana Belo/G1)"Sempre trago flores. É uma forma de agradecer", disse. A escolha do presente da amiga de Margareth, Maristela Lins, foi semelhante. "Sempre escolho flores, nunca joguei nada no mar que não fossem flores. Sou de João Pessoa, moro em Salvador há 19 anos e desde então admiro essa festa", conta.

Foto 02: Fiéis formam fila gigante para deixar presentes na Colônia de Pescadores do bairro do Rio Vermelho(Foto: Maiana Belo/G1)

As flores também são preferências de Rita de Cássia Paiva, mas no caso dela é para a venda. A autônoma de 53 anos já trabalha há cerca de 10 anos na Festa de Iemanjá, na capital baiana. "Vendo flores porque elas são lindas. Estou satisfeita com as vendas, a procura está grande. São duas por R$ 5. Tenho certeza que é o presente que Iemanjá mais gosta", brinca.

A maioria dos devotos costuma deixar os presentes na Colônia dos Pescadores para depois serem entregues em alto-mar. Mas há outras duas opções: lançá-los diretamente nas águas ou utilizar barcos dos próprios pescadores e depositar as oferendas um pouco distante da costa.

Os ventos permanecem fracos nos locais dos festejos, entre 3 e 5km/h. (Foto: Max Haack/Ag Haack)Em meio à movimentação do Rio Vermelho, há quem espera receber boas energias com um banho de folhas ao longo da Rua da Paciência. Essa é uma tradição do candomblé. "É para afastar o mau olhado, os inimigos, e ter êxito nos objetivos e abrir caminhos", explicou Luiz de Tempo, pai de santo que já participa da festa há 20 anos.

Foto 03: Embarcações levam presentes ao mar do RioVermelho (Foto: Max Haack/Ag Haack)

Da calçada onde pai Luiz oferta o banho é possível observar os devotos na areia da praia que fica lotada ao longo do dia 2 de fevereiro. O local se transforma em um verdadeiro tapete branco e azul, cores que representam Iemanjá.

"O branco e azul também são referências às cores do mar. Estão associados. Iemanjá é a grande rainha, mãe de todos", acredita o jovem Ubirailton Jambeiro, religioso do candomblé.

Da orla, é possível ver as pessoas organizando os balaios de presentes, colocando flores no mar, pegando barcos para levar as oferendas para longe da costa e também muito samba de roda pelas ruas.

Em mais uma demonstração de fé e tradição, muitas pessoas fazem questão de se aproximar da Colônia de Pescadores, onde está o presente considerado "oficial". Por lá, a recepção das oferendas ocorre ao longo do dia e, por volta das 15h30, segundo os pescadores, ocorre um cortejo no mar com cerca de 200 embarcações que levam os presentes a Iemanjá.

Presente principal

A oferenda principal a Iemanjá é uma imagem da "Rainha do Mar". De acordo com Marcos Souza, presidente da Colônia de Pesca, o presente foi criado por artesãos que não quiseram ter as identidades divulgadas.

Marcos detalha que um homem foi responsável pela construção da parte estrutural da imagem. Já uma mulher fez a customização com enfeites. O detalhe é que ambos fizeram o trabalho separadamente e não se conhecem.

O presidente acrescenta que a imagem de Iemanjá foi construída com fibra de vidro. Por dentro, ela é oca para não pesar sobre o mar. Nos enfeites, Marcos diz que foi priorizado o uso de objetos naturais como as flores para não agredir o meio-ambiente.

A oferenda será levada para o mar na tarde desta quinta-feira. Até o final do dia, a previsão da Colônia de Pesca é de que até 600 mil pessoas passem pelo bairro do Rio Vermelho, onde ocorrem os festejos.

História

A tradição do presente da mãe d'água, (como era conhecida festa), segundo historiadores, teve início em 1923, quando um grupo de 25 pescadores resolveu oferecer presentes para a "mãe das águas" na expectativa de que ela pudesse resolver o problema de escassez de peixes.

A tradição foi crescendo e começou a ganhar força em 1930. O dia 2 de fevereiro, entretanto, só foi oficializado na década de 1950, quando o presente passou a ser chamado de "Festa de Iemanjá".

Desde então, todos os anos eles pedem à orixá fartura de peixes e mar tranquilo. Entre as superstições que envolvem as homenagens, está a questão da receptividade dos presentes. Reza a lenda que, caso o presente seja encontrado na beira da praia, é porque a divindade não gostou da oferta.

Quando a oferenda desaparece no mar, no entanto, é sinal de que o presente foi aceito. Nos últimos anos, são realizadas campanhas de conscientização para que as pessoas adotem presentes sustentáveis, como uma forma também de preservar o meio ambiente.

Oxum

As celebrações a Iemanjá começaram ainda na madrugada desta quinta-feira, quando frequentadores do terreiro Odê mirim, no Engenho Velho da Federação, foram para o Dique do Tororó, em Salvador, prestar homenagens a Oxum.

Um dos participantes célebres dos festejos foi o cantor Carlinhos Brown, que ao lado da mãe de santo Aíce de Oxóssi, levou presentes para a orixá da água doce.

O cantor explicou porquê as celebrações começam com a reverência a Oxum. "Iemanjá cuida do mar sagrado e das suas águas. Mas ela deixou Oxum para cuidar da água doce, dessa água de beber. Sem beber água doce, ninguém consegue navegar", contou o percussionista baiano.

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