quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Polícia indicia 5 no caso da queda de helicóptero que matou filho de Alckmin

Inquérito de 2015 que responsabiliza funcionários de empresa de manutenção foi encaminhado à Justiça em Carapicuíba. Promotoria analisa documento para decidir se oferece ou não denúncia.


Após um ano, a Polícia Civil concluiu o inquérito que investigava a queda do helicóptero que matou cinco pessoas na Grande São Paulo, entre elas Thomaz Alckmin, filho mais novo do governador do estado, Geraldo Alckmin (PSDB). O G1 apurou que o relatório final apontou problemas na manutenção da aeronave para ela cair em 2 de abril de 2015 em Carapicuíba. 

Cinco funcionários da Helipark, empresa que fez essa manutenção, foram responsabilizados por três crimes relacionados ao acidente. Além do caçula de Alckmin, que tinha 31 anos e sabia pilotar, morreram o piloto Carlos Haroldo Isquerdo Gonçalves, de 53 anos, e os mecânicos Paulo Henrique Moraes, de 42, Erick Martinho, 36, e Leandro Souza, 34. 



Todos os investigados respondem em liberdade. São eles: 

- três empregados (mecânico, gerente e diretor) acabaram indiciados por homicídio culposo (sem intenção de matar) porque teriam falhado na checagem da aeronave antes dela decolar; 

- um controlador de pista foi indiciado por falso testemunho ao suspostamente mentir sobre o tempo de voo do helicóptero até sua queda; 

- outro funcionário, que tinha a chave da sala de câmeras da Helipark, responde por fraude processual por suspeita de apagar imagens gravadas no computador. 

O Ministério Público Estadual (MPE) analisa o documento, concluído em novembro, para saber se vai ou não oferecer denúncia à Justiça contra os suspeitos. 

Em nota, a Helipark informou que o relatório final policial "baseou-se em precipitadas e oficiosas conclusões que têm por base uma única e absurda premissa de ordem técnica" (leia abaixo a íntegra do posicionamento). 

Essa "absurda premissa de ordem técnica" que a empresa se refere foi a conclusão preliminar da Aeronáutica. Em junho do ano passado, a Força Aérea Brasileira (FAB) divulgou comunicado sobre as prováveis causas do acidente: a desconexão de duas peças antes da decolagem, que permaneceram assim durante o voo. A nota não informou o motivo da desconexão, mas divulgou desenho do sistema de controle do helicóptero para mostrar onde as peças estariam desconectadas. 

Em mais de 100 páginas, a polícia também concluiu o mesmo que a Aeronáutica: que o "controle flexível (ball type)" e a "alavanca (bell cranck)" estavam desconectados e foram determinantes para a queda. Foto da perícia feita no helicóptero no final de abril de 2015, obtida pelo G1 (veja abaixo), mostra que o parafuso que deveria unir essas duas peças está preso numa das hastes, mas a outra ponta ficou solta. 

O documento final da FAB, que ainda será concluído, não apontará culpados. Vai sugerir apenas recomendações para se evitar novos acidentes com o mesmo modelo Eurocopter EC-155 B1 da aeronave de origem francesa. A investigação é feita pelo Seripa 4, que é vinculado ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). 

Essas duas peças que estavam desconectadas servem para transmissão de movimento de vários sistemas de aeronaves. Podem acionar o rotor de cauda para movimento de guinada ou o rotor principal para subir, descer ou movimentos laterais. Também são usadas para controlar o motor. Normalmente ficam dentro da fuselagem do helicóptero e são acessíveis para manutenção. 

A investigação é complexa e envolve outras provas técnicas. Mais de 30 pessoas, entre elas, técnicos e mecânicos, foram ouvidas no inquérito, que possui sete volumes, cerca de 1.500 páginas de depoimentos e informações técnicas. Até hoje não foi possível determinar qual dos ocupantes pilotava a aeronave no momento da queda.

A queda

No dia em que o helicóptero caiu, a aeronave realizava testes de balanceamento das cinco pás do rotor principal. Imagens de câmeras de segurança gravaram o helicóptero decolando com problemas e caindo sobre residências de um condomínio. Elas mostram que as pás teriam se soltado. 

De acordo com a investigação, as pás foram retiradas pela Helipark e encaminhadas para a Helibrás fazer a revisão em Itajubá, Minas Gerais. Depois, as pás voltaram para a Helipark, em Carapicuíba, instalá-las no helicóptero. 

A suposta falha na revisão das pás que formam a hélice, outra hipótese investigada para tentar explicar o acidente, foi descartada, no entanto, pela polícia. Os moradores não se feriram, mas suas casas ficaram parcialmente destruídas. 


A empresa Seripatri Participações era a proprietária do helicóptero destruído. À época, ela informou que que a aeronave fazia um voo de teste após manutenção preventiva. O helicóptero tinha cerca de quatro anos de uso, “com aproximadamente 600 horas de voo” e estava com “documentação e manutenção rigorosamente em ordem”, segundo a empresa. 

O voo do dia do acidente foi o primeiro daquele helicóptero após quase dois meses de intervenções previstas de revisão e manutenção. 

Leia abaixo a íntegra da nota da Helipark

"O relatório do inquérito policial que tem por fim a apuração das causas do acidente com o helicóptero prefixo PP-LLS, ocorrido em 02 de abril de 2015, baseou-se em precipitadas e oficiosas conclusões que têm por base uma única e absurda premissa de ordem técnica, isto é, a de que determinado componente de controle da aeronave teria sido deixado desconectado antes da decolagem.
 
Esta hipótese, que serviu de base a todas as informações técnicas do inquérito, é tão absurda quanto a de se afirmar que um automóvel com a barra de direção solta pudesse trafegar por uma via sinuosa. No caso do helicóptero, a hipótese é ainda pior: até mesmo o mero acionamento dos motores teria provocado um acidente com o tombamento lateral da aeronave ainda no pátio.
 
Os fatos tal como levantados naquele inquérito foram objeto de questionamento por especialistas e pilotos, em manifestações que nunca foram levadas em consideração pela autoridade policial. Tais manifestações foram endereçadas a todas as autoridades que, de uma maneira ou de outra, deveriam conhecer do tema, da ANAC aos Ministérios Públicos, Estadual e Federal.
 
A conclusão de uma apuração, que tenha em conta todos os fatores e empresas que estão envolvidos no infausto acidente, certamente demonstrará o absurdo e a falta de fundamento das conclusões do inquérito e, por consequência, dos indiciamentos levados a efeito.
 
A direção do Helipark tem plena convicção a respeito da sua absoluta correção no atendimento das normas técnicas que regem a manutenção aeronáutica, característica que é notória nesse meio, e que restará reconhecida ao cabo de efetiva e imparcial investigação." 








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