sábado, 5 de novembro de 2016

UM ANO APÓS A TRAGÉDIA!!!! A mãe que sofreu aborto na lama e luta para incluir feto entre vítimas de Mariana

Fonte: BBC - Brasil

"Pensa em milhões de trovoadas de uma vez. Era o barulho da lama. As paredes da casa começaram a tombar em cima da gente. Meu irmão gritava. Veio a lama e arrancou meu filho de 2 anos e minha sobrinha dos meus braços. Foram os dois, dentro da lama. Eu afundei. Não enxergava mais nada."

Priscila Monteiro, de 28 anos, fazia aniversário naquela tarde de quinta-feira, 5 de novembro de 2015, em Bento Rodrigues, vilarejo perto de Mariana (MG). Estava grávida de 3 meses. Faria um ultrassom no dia seguinte. "Queria muito saber o sexo do bebê."

Bento Rodrigues, MG

Foto: Urso de pelúcia soterrado em Bento Rodrigues, após rompimento de barragens da Samarco

"Aí, senti a dor do aborto. A dor do aborto. Perdi meu bebê e fui arrastada pela lama. Eram ondas, eu afundava, me cortava toda. Engoli muita lama. Furei meu rosto e cortei costela, pernas, braços, nádegas. Meu maxilar saiu do lugar. A lama levou toda minha roupa."

Narrada um ano depois à BBC Brasil, a história de Priscila ilustra o impacto da maior tragédia ambiental brasileira de que se tem notícia e vai além do leito cor de barro do Rio Doce, dos peixes e margens contaminados, dos destroços de casas sem teto.

Ela foi arrastada por mais de um quilômetro e ficou 13 dias internada. No segundo dia, soube que o filho Caíque fora encontrado vivo. No quinto, lhe disseram que a sobrinha Emanuele Vitória, 5, havia morrido. O marido e o segundo filho, de 9 anos, estavam bem. 

Desde então, pede que o bebê que carregava na barriga seja reconhecido como a 20ª vítima fatal da tragédia. Mas a dona da barragem rompida, a mineradora Samarco, controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton, nega responsabilidades sobre o feto.

Montagem mostra Priscila e laudo médico que atesta gravidez

 Foto: À esquerda, Priscila, que perdeu bebê enquanto era arrastada pela lama; ao lado, boletim médico atesta gravidez

Laudos

 

"A Samarco diz que o estouro da barragem não seria suficiente para ela perder o bebê", diz o advogado de Priscila. 

Procurada pela BBC Brasil, a empresa disse que "não comentará o assunto". A reportagem enviou quatro perguntas à mineradora: 

- A Samarco reconhece a perda do bebê em decorrência da tragédia?

- Que medidas compensatórias a empresa propôs ou proporá? 

- A família pede que o bebê seja incluído na lista de vítimas. Seria o 20º óbito. Qual é o comentário da empresa? 

- A Samarco inicialmente questionou a gravidez de Priscila. Por quê? 

Na única vez em que comentou oficialmente o caso, há seis meses, a Samarco informou que contratou um especialista para examinar Priscila e que ele constatou que ela não estava grávida.

Parque infantil soterrado em Bento Rodrigues, MG

Foto: Priscila foi arrastada por mais de um quilômetro, ficou 13 dias internada, abortou na lama e perdeu a sobrinha Emanuele Vitória, de 5 anos.

"Será que é por que eu tinha perdido o bebê?", questiona hoje Priscila, irritada. Ela diz que nunca viu o resultado do exame.

Seus advogados apresentaram à reportagem três fichas médicas. "Encontrava-se grávida, com confirmação laboratorial e clínica, até a última consulta", diz um deles. "Gestante de 8 a 12 semanas", diz outro. "O obstetra que a avaliou informou que perdeu o bebê", diz o terceiro.

"Não são 19, são 20 (mortes). Meu filho é vitima. Eu amava. Eu tinha roupinhas", diz a jovem, que hoje mora em Mariana com a família - o marido e dois filhos. 

'Você tem que esquecer'

 

Escola infantil soterrada

 Foto: Vista aérea mostra escola infantil soterrada após onda gigante de restos de mineração da Samarco.

No aniversário de um ano da tragédia, a família ainda se adapta à nova vida em Mariana.
"Meu filho Caíque volta para casa chorando da escola porque chamam ele de 'pé de lama'. Chamam a gente de aproveitadores. Ele não tem mais liberdade para brincar na rua, aqui eu não vou pra soltar (de casa)." 

A reportagem pergunta por quê. "Ele pode ser atropelado, roubado, morto. Tem gente que mata aqui por nada."

Séria durante toda a entrevista, sem rir ou chorar, Priscila conta que a empresa ofereceu acompanhamento psicológico às vitimas logo após o desastre. 

Tentou, mas não frequentou as sessões por muito tempo.

"Parei porque os psicólogos pediam para eu esquecer. Como esquecer? Eles pediam para eu contar como aconteceu. Eu contava tudo e eles falavam: voce tem que esquecer. Eu perdi meu bebê, minha sobrinha morreu, meu filho quase morreu. Como assim esquecer?"

Legislação 

Boletim médico

 Foto: Boletim médico assinado por psicóloga no dia seguinte à tragédia.

Seus advogados ajuizaram uma ação contra a mineradora Samarco, que junto a suas controladoras sofre hoje mais de 18 mil processos judiciais decorrentes da ruptura das barragens que guardavam milhões de metros cúbicos de restos de minerais, produtos químicos e entulho.

"Como ainda não foi designada audiência, ainda a empresa não se pronunciou dentro do processo", diz a acusação, que pede indenização por danos materiais e morais devido ao trauma de Priscila.

A reportagem não encontrou registros de casos similares ao de Priscila no Brasil. 

Para Paulo Avila Fagundez, professor de bioética e biodireito da Universidade Federal de Santa Catarina, o episódio pode ser interpretado pelo conceito de "nascituro", presente na legislação brasileira. 

"A pessoa passa a existir a partir do momento em que o feto sai do ventre. Mas a lei indica os direitos do nascituro, aquele que ainda virá a nascer, porque o aborto é hoje um crime contra a vida no Brasil."

Para a lei, explica o professor, o nascituro é como "uma pessoa virtual", "uma expectativa de vida humana". 

"Segundo a lei, qualquer interrupção que ocorra no curso da gestação é crime e passível de punição, e quem comete o aborto na pessoa responde por crime. Nesse caso, o acidente foi responsável pelo aborto, contra a vontade da gestante."

Relatório assinado pelo médico de família

Foto: Relatório assinado pelo médico que acompanhava Priscila no programa Médico de Família, em Mariana.

Nove meses depois da tragédia, diretores das mineradores reconheceram pela primeira vez que o episódio foi fruto de uma obra na barragem. O anúncio foi feito pelos presidentes da Samarco e da Vale e pelo diretor comercial global da BHP - jornalistas não foram autorizados a fazer perguntas na ocasião.

"Eu queria ver o presidente da Samarco um dia", diz Priscila.

"Se eu tivesse feito um aborto, estava presa, teria cometido um crime. Ele arrancou meu filho à força do meu ventre e nada acontece."



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